Revirando papéis velhos, encontro o recado bobo que você deixou anos atrás, meio por brincadeira, meio por agrado espontâneo; delicado e sem muito sentido ou propósito, qual cafuné repentino revolvendo os cabelos.
Como numa casa assombrada, sua caligrafia ganha vida; em cada letra, cada curva, cada traço mais forte, as palavras perdem o sentido que lhes atribui o código da linguagem gráfica, para se tornarem registros fósseis gravados na pedra. A sua mão segurando a caneta se materializa bailando ante aos meus olhos incrédulos, que quase não se lembravam mais do seu jeito único de imprimir o verbo no papel. E da mão que se move germina o braço nu, e do braço o ombro, e sucessivamente cada parte do seu corpo esguio; partes que se agrupam como sílabas, numa totalidade harmoniosa que se move dançante, descrevendo os volteios da caneta fotografados na palavra escrita.
E como quem toma um fantasma para valsar, percorro com as pontas dos meus dedos os pequenos borrões deixados pelas pontas dos seus dedos. Chego próximo à folha rabiscada. A alucinação de papel exala o vapor que se confunde entre o aroma de papéis guardados e o pouco que resta do seu perfume, aprisionado na superfície pautada. É o seu cheiro, ou o cheiro da lembrança do seu cheiro. É a ponta do nariz que percorre com esmero cada pico ou vale da topografia de sua escrita, pele se fundindo ao papel. A tinta se mistura ao ectoplasma de tempos mortos. Perpetuam-se os espíritos dançantes, gravados no rastro de pegadas entre linhas de caderno.
Num último capricho, tomo a caneta na mão, respondo o recado e o guardo para sempre, por enquanto. Já não sei se troco as flores de um jazigo lacrado há séculos ou se tomo meu lugar na sepultura. Que minhas palavras se unam às suas, esquecidas, virando pedra ou pó, como os amantes petrificados de Pompéia.




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Te questiono: onde está o questionamento?
maravilhoso, André. Vim aqui matar a saudade de sua escrita. Hoje pensei: "o que anda escrevendo o André?" Que surpresa boa ver este seu "Amores Arqueológicos". Ray
fala, Marcon! É o Danilo, achei hoje teu blog e nem lembrei de falar na aula =(
mto bom esse txt, to indo ler mais, abs
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