sexta-feira, 28 de outubro de 2011
ao café de sempre, no Cafe de sempre
Cascudos, escuros, retorcidos
Dedos percorrem o cafezal;
Galhos roçando galhos
Em chuva rubra de gotas e frutos.
Um mar de grãos se dispersa
Por incontáveis mãos que retêm tão pouco...
Arrasta vidas, todo um emaranhado de vidas
Torradas e moídas;
Tudo para que eu beba esse meu café-gourmet:
Minha despretensiosa infusão
Da totalidade concreta e dinâmica das coisas.
Pagando caro por uma bebida orgânica, impregnada de gente em concentrações toleráveis qual insetos na farinha;
Pagando caro pelo sorriso de aluguel e mãos cuidadosas que me servem;
Pagando caro pelo ambiente meticulosamente planejado para que eu me sinta bem;
Pagando caro pela convicção de que se sabe o que faz;
Pagando caro pela música ambiente imortal cantando de décadas atrás a transformação possível da realidade;
Pagando caro para sorver a vida e bebericar água negra enquanto discuto minhas soluções para o mundo.
Profundamente apoquentado
Sinceramente amargurado
Pedindo mais e mais açúcar
Tentando não pensar em canaviais.
Pois em tudo que há gosto,
Em tudo que é tátil,
Em tudo que vejo, escuto ou cheiro,
Há exploração,
Há escravidão,
Há o homem se fazendo homem ao desumanizar o homem.
E sou senhor e coisa,
Sou vítima e causa
De todos os problemas do universo,
Que rebato
Num gole de algo qualquer.
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